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By: smartgreen ligado: julho 26, 2016 In: Notícias, Smartgreen, Utilities Comments: 0

O termo “blockchain” ainda soa estranho ao ouvido da maioria das pessoas, mas, segundo indicam as previsões, logo vai estar na boca de muita gente. Trata-se da tecnologia responsável por viabilizar as transações com moedas digitais, como o bitcoin, e que ganha a cada dia novas aplicações, devido à capacidade de permitir a movimentação de vários tipos de ativos – como documentos e arquivos digitais – sem a necessidade de intermediários. Não à toa, há quem a chame de “Uber dos bancos”.

Membro sênior do Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE) e professor da Universidade Beihang, em Pequim, o pesquisador chinês Wei-Tek Tsai é uma das maiores autoridades da Ásia sobre a tecnologia. Tsai é diretor da Sociedade Digital e Laboratório de Blockchain e já projetou redes de blockchains que atingiram 40 mil transações por segundo.

Em entrevista à Gazeta do Povo concedida por e-mail, o pesquisador fala sobre as aplicações do blockchain e os desafios para a disseminação da tecnologia.

Blockchain é a tecnologia que, em resumo, permite transações de moedas virtuais como o bitcoin. Há quem também conceitue esse sistema como uma espécie de banco de dados ou “livro-razão” por onde circula não apenas informação, mas tudo que tem valor – incluindo dinheiro, propriedade intelectual, ações, etc. Há alguma outra definição conceitual capaz de abraçar a complexidade dessa tecnologia?

Antes de mais nada: blockchains e moedas virtuais não estão necessariamente relacionadas. Você pode ter blockchains sem as moedas virtuais associadas. Por exemplo, blockchains privados podem não ter moedas virtuais. Às vezes até blockchains públicos não têm moedas virtuais.

Além disso, uma moeda virtual pode não ser puramente digital como bitcoin ou o Ether (de Ethereum) nem puramente real (como o dólar ou a libra). Diferentes pessoas têm diversas interpretações sobre blockchains. Para mim, um blockchain é um banco de dados distribuído, e dados são criptografados como no blockchain usado para o bitcoin. Isso é a única coisa sobre a qual todos concordam. Todos os outros itens são alvos de discussão. Por exemplo, a maioria dos blockchains terão protocolos consensuais, mas quais? Além disso, quem pode se envolver nos protocolos de consenso? Quem pode tomar essa decisão?

Muito se fala que o blockchain vai atingir diretamente o setor financeiro, ao permitir que pessoas e empresas façam transações de forma direta, sem intermediários, o que também diminui os custos dessas transações. Por outro lado, já se vê notícias de bancos que estão pesquisando e trabalhando para adotar essa tecnologia. É mais provável que no médio e longo prazo os bancos e instituições financeiros sejam “atropelados” pelo blockchain ou que “domestiquem” o sistema, para torná-lo mais adequado a seus propósitos?

Mesmo se você usar o bitcoin para uma transação, por exemplo, primeiro você precisa obter sua moeda fiduciária, como o dólar americano, e converter para bitcoin, e então transferir dinheiro por meio da rede bitcoin. No outro extremo, a pessoa pode optar por manter o dinheiro em bitcoin, mas na maioria das vezes, a pessoa vai querer converter para uma moeda local, como libra.

No cenário acima, as pessoas ainda são obrigadas a confiar nos Bancos Centrais, no caso, o Banco Central Americano e Britânico, que emitiram o dólar e a libra lá no começo, antes da transação. Ou seja, mesmo que o bitcoin seja usado, autoridades centrais ainda serão envolvidas. Mas serão necessários meses, ou até mesmo anos, de estudo, pesquisa e experimentação para os bancos, antes que o sistema blockchain se torne dominante nos bancos.

Fala-se que o blockchain pode também diminuir a necessidade do uso de plataformas que intermedeiam serviços e produtos, como o Uber, Airbnb e Spotify – a ideia é permitir que os responsáveis contatem diretamente os interessados por esses produtos e serviços e não tenham que perder dinheiro na transação passando uma cota para intermediários. Que outras áreas, além da financeira, podem ser afetadas – para o bem ou para o mal – por essa tecnologia?

Mesmo para sistemas de blockchains existirão alguns intermediários. Primeiro, ainda que nada mais desempenhe o papel de agente intermediador, o próprio sistema de blockchain vai assumir esse papel. Reguladores estarão em torno para vigiar as transações, de uma forma ou de outra.

Na verdade, o blockchain vai fazer o papel do agente intermediário. Então, é difícil declarar que intermediários não serão mais necessários, é mais fácil dizer que eles serão parcialmente substituídos por sistemas de blockchain.

A redução de custos virá da rápida execução, e os processos de negócio serão diferentes quando o sistema de blockchain for utilizado. Dessa maneira, a redução dos custos ou qualquer ganho econômico virão de processos mais eficientes. Então, eu prefiro pensar que é uma “reestruturação do processo”, ou uma “reconfiguração do processo”, ao invés de encarar como “eliminação de agentes intermediários”.

Quase todos os setores e áreas podem ser impactados pelo blockchain, conforme indicado por um relatório do conselho científico do governo do Reino Unido, divulgado em janeiro deste ano. Eles relataram que diversos setores podem se beneficiar do sistema de blockchain, incluindo impostos, ajuda internacional, bancos, corretagem, educação, energia, governo e por aí vai. Cada dia nós vemos novas formas de aplicação do blockchain. Mas reguladores estarão em torno para vigiar as transações, de uma forma ou de outra. Não há como evitar reguladores no sistema de blockchain.

Hoje em dia ainda muitas pessoas têm receio de informar dados privados pela internet e fazer compras online usando o cartão de crédito. Em tese, o blockchain exige que esse comprometimento em confiar no próximo e na internet seja ainda maior. Isso não pode ser um obstáculo para a adoção do blockchain em larga escala, pensando no usuário comum?

Todo mundo precisa fornecer suas identidades assim como senhas privadas para ter acesso. Mas isso não está relacionado exclusivamente a blockchains, já que blockchain é apenas um sistema, e, portanto, precisa lidar com os mesmos problemas de identificação que outros sistemas de internet também lidam.

Isto não será um obstáculo, como não foi um obstáculo para os sistemas de internet convencionais. A confiança é um problema para os sistemas convencionais e vai ser um problema para os sistemas de blockchain, mas como a confiança será tratada será diferente para esses sistemas. Em sistemas com base blockchain, governo ou reguladores podem ter maior controle, uma vez que eles podem obter dados diretamente do blockchain, ao invés de depender dos sistemas fornecedores de dados.

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